domingo, 25 de maio de 2014

Acompanhando outra equipe, fora do plantão!

O plantão da minha equipe no dia 23 foi um pouco "puxado". Foram 11 (onze) locais e tínhamos apenas três plantonistas, além da equipe de motoristas e fotógrafos.

Aparentemente foi tão extenuante que nem os meus colegas de plantão, Glauco e Edmundo, chegaram a inserir - no mesmo dia - os seus dados no Sistema de Gestão Operacional Unificado - Sisgou:

Levantamentos registrados no plantão do dia 23. Consulta dois dias depois do plantão.

Diversamente se comportaram os plantonistas do dia seguinte, dia 24:

Levantamentos registrados no plantão do dia 24. Consulta feita no dia seguinte.

Eles contavam com quatro plantonistas, mas fizeram mais levantamentos (inclusive dois deles ocorreram no meu plantão, mas não tínhamos condições de atender).

Tive curiosidade de saber como se comportaram. Então consultei os relatórios dos peritos:

Foram 14 levantamentos, sendo dois acidentes de trânsito, duas constatações de danos, oito homicídios, um cadáver encontrado e uma morte acidental (eletroplessão).

Percorreram 1.112 km para ir e voltar das 7 viagens no interior. Considerei os dois levantamentos em São Sebastião como uma só viagem. A distância média por viagem ficou em 80 km (apenas ida).

Sete viagens para o interior, numa distância média de 80 km.

Não computei as distâncias dentro de Maceió, que podem chegar a até 15 km entre o Centro e a algumas periferias.

Abaixo é possível ter uma noção dos horários de atendimento durante as 24 horas do plantão dos quatro plantonistas:

Distribuição dos atendimentos ao longo das 24 horas do plantão.

Considerei horas inteiras, desde a hora da chamada, até a hora de término do exame no local. Não inclui o deslocamento de volta para a base do Instituto de Criminalística, em Maceió.

Na próxima publicação ilustrarei o plantão da minha equipe, que foi executado no dia anterior.

sábado, 17 de maio de 2014

Plantão acompanhando outra equipe!

Acompanhar colegas de trabalho em locais de crime soa bastante estranho atualmente. A exiguidade de peritos não permite. Mesmo assim insisti em ir com o colega Robério em um local bastante próximo da base. Assim, se houvesse outra chamada, eu estaria dentro do perímetro de atuação da base com alguma folga!

Vista geral do local de crime (com indicação do cadáver no primeiro plano).

Embora todo o procedimento seja padronizado, algumas peculiaridades são transmitidas ao levantamento pelas características dos membros da equipe. Como gosto de fotografia, me detive especialmente na fotógrafa Luciana:

Fotógrafa se posicionando para fazer tomadas de relação de vestígios.

Das 126 fotografias que obtive, não necessariamente objetivando fazer o levantamento, a fotógrafa aparece em 67 delas!

Não é fato de se espantar, afinal de contas as mesmas tomadas que ela teria de fazer, eu também, se pretendesse, no mínimo, ajudar no levantamento fotográfico.

Abaixo duas imagens fora dos objetivos periciais.


À medida que o fotômetro central da câmera obtinha medidas, inclusive influenciada pela posição da lanterna da fotógrafa, obtive duas imagens distintas e com mensagens diferentes!

Observem que na segunda imagem, quando ela iluminou o braço, o fotômetro julgou maior claridade geral na imagem. Como não correspondia com a verdade, todo o restante ficou escuro.

A equipe trabalhou em harmonia. Vejam abaixo o "trio", Robério (perito), Luciana (fotógrafa) e Messias (motorista). O pessoal do Instituto Médico Legal ajudou na manipulação do cadáver.

Robério, Luciana e Messias, todos da equipe pericial.


Todos os dados necessários para esclarecimento do fato devem ser cuidadosamente coletados e anotados. Nisso se começa a perceber uma pequena diferença entre eu e o Robério. Ele anota mais e é bem compenetrado nos detalhes:

Robério anotando dados importantes.

Por outro lado, eu costumo abusar das fotografias. Insiro o máximo de informação nelas. Seja por meio de escalas, numeradores ou mesmo edição eletrônica posterior. Também fazem parte da linguagem visual, a sequência e os ângulos das tomadas fotográficas.

No levantamento da Luciana, apareci apenas em duas fotos das quarenta e seis que ela produziu. Em uma fiquei irreconhecível (muito longe). Na segunda fiquei bem melhor! Vejam abaixo:

Uma das raras vezes em que sou fotografado pelos colegas.

Os dois levantamentos resultaram 172 fotografias, mas as condições precárias de iluminação introduziram muitos "ruídos" em todas as imagens (consequência da sensibilidade alta do sensor).

Ainda existiram outros problemas, como o isolamento do local. Tardio para uma zona urbana densamente povoada. A preservação também foi sofrível, pois muitos policiais circularam dentro da cena do crime.

Por fim, foi um caso interessante para discussão. Quem sabe consigamos por na mesa os dados. Discutir sobre eles e propor melhorias.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Último plantão de abril - chuva, viagem e pocilga

Mal cheguei no instituto e já havia ocorrência dos plantonistas anteriores que não foi atendida. Sigo pela rodovia AL-101 Sul e constato que nem o IML também chegou no local. A Polícia Militar já renovou sua guarnição. A Polícia Civil chega em seguida. Adiantamos os trabalhos periciais pois a chuva se intensificava.

Seguindo pela rodovia AL-101 Sul ou "Ib Gatto Falcão".

Finalizamos com poucos elementos materiais que pudessem elucidar o crime. Vítima não identificada. Moradora de rua. Fazia bicos nos bares próximos. À noite, alguém se desentendeu, bateu, deitou e matou. Usou instrumento contundente, grande e pesado. Cabeça esmagada. Cérebro exposto. Voltamos ao IC.

Segunda chamada fica para meu colega. A terceira chamada volta pra mim. Coisas de quem está atrasado no rodízio de distribuição de trabalho. Destino: Inhapi. Distância: 263 km (no papel!).

Sigo pela mesma estrada com ainda mais chuva.

Voltando ao mesmo caminho, mas com distância maior e mais chuva.

Notícia de roubo de explosivos. Pouca informação. Precisei insistir para saber detalhes. Coisa ruim todo mundo comunica, mas não verifica. Para quem vai viajar mais de 500 km, é preciso ter alguma segurança.

Uma vez confirmado, sigo e completo 272 km em 4 horas até a delegacia de Inhapi.

Pintura estragada na fachada da delegacia de Inhapi.

Acompanhados do policial que conhece a região, seguimos para o local dos exames distante 14,4 km da delegacia. Estrada de barro, enlameada, mas bem conservada.

Pela qualidade do material roubado, também qualificavam-se os investigadores. Não eu, mas exército e divisão especial da Polícia Civil estavam presentes. Conversa daqui, conversa dali e verifico que tudo que foi quebrado e rompido para roubar, já está consertado. Suspeitava, por isso insisti nos telefonemas prévios. De nada adiantou. A cena estava inidônea. E restaram poucos vestígios.

Mas, conversa daqui e dali, entendo que os especialistas poderão suprir bastante bem as informações necessárias para a boa investigação. Explano minha visita, necessária por lei e imposta pela solicitação, despeço-me e devolvo o policial na delegacia (não havia viaturas na delegacia).

Retorno no escuro, com fome, para jantar em Santana do Ipanema. Sanduíche, claro!

E não é que o dono do estabelecimento me vem com essa: "mataram um, agorinha mesmo!". Só fiz perguntar: onde? E completei: já que vai saciar sua curiosidade indo ao local, então me oriente como chegar no mesmo lugar!

Já passava das 20 horas quando chegamos num final de logradouro onde estava sendo rebocado um veículo alvejado por arma de fogo.

Repitam comigo: em todo local de crime existem vestígios úteis! Chame o perito!

Abordei o policial militar de preto, oficial, ex-aluno e espantado com um perito no sertão. Indaguei: o que acontece aqui? Ao que ele respondeu: surpreenderam a vítima dentro do carro, mas aparentemente não morreu ali dentro. Ainda fugiu. Embrenhou-se no brejo e lá ficou. Os bombeiros já passaram aqui. Puxaram o cadáver para a margem, mas só tem acesso pelo outro lado da quadra.

Ali estava, ali comecei os exames.

Disparo de arma de fogo em veículo é o mesmo que recolhimento involuntário de projéteis, pois as modernas carrocerias deformáveis e forros macios prendem facilmente os projéteis. Saquei a chave de fenda e despreguei o forro da porta. Encontrei dois bons projéteis, encamisados, viáveis para exame de microcomparação. Será que o delegado não sabia disso para solicitar, com veemência, uma perícia - de busca e coleta de projéteis - no veículo?

Eu já havia tomado chuva durante a primeira ocorrência. Tomei mais chuva na zona rural de Inhapi. E desta vez a chuva foi um pouco mais intensa. O chapéu já escorria água por dentro.

Obtido os projéteis, parti para o cadáver. Sua localização: dentro de uma pocilga...

Chuva, lama, fezes e animais, tudo no escuro!

Com muito cuidado evitei escorregões na lama, mas não havia como se proteger da chuva. Simplesmente esqueci que havia levado minha capa de chuva. Abusei do chapéu e esperei que o colete encharcasse antes que as minhas demais peças de roupa.

Não consegui mais que tomar uma identificação visual da vítima. A manipulação era inviável no local onde estava. Pus a pulseira de identificação e espero que o IML possa concluir satisfatoriamente o exame dos ferimentos.

Identificando numericamente o cadáver.

Quando finalizamos os exames, os policiais civis chegaram. Entreguei a via de identificação do cadáver em mãos.

Dali abastecemos nossa viatura para o retorno à Maceió. Foram 377,6 km consumindo 40,39 litros de diesel S-10. Autonomia na primeira parte da viagem de 9,35 km/litro.

Abastecendo em Santana do Ipanema às 21h53.

Chegamos em Maceió às 00h50 do dia primeiro de maio. Percorremos 575,7 quilômetros e pude verificar que o odômetro da viatura está majorado em 2,38%, mas dentro de um padrão de normalidade.

Descarreguei 159 fotografias (válidas para a produção dos laudos). Baixei os dados do GPS. Preenchi os formulários on-line do sistema de informações da secretaria de segurança e embalei os vestígios coletados. Ainda falta editar as imagens, inserir nos modelos de laudos e adequar todo o texto.

Finalizo esta publicação no final do meu plantão, mesmo sem ter dormido. Descanso só em casa!

Até o próximo plantão!

domingo, 16 de março de 2014

Nota de falecimento

"É com imenso pesar que a Direção da Perícia Oficial do Estado de Alagoas e a Direção do Instituto de Criminalística informam o falecimento do perito criminal Severino Lira, ocorrido na madrugada deste domingo,  16 de março, no hospital de Açúcar."


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sociedade Brasileira de Ciências Forenses

Clique aqui para acessar o site.

Inserimos novo link na barra lateral de "outros blogs relacionados". Não se trata de um blog. É uma página eletrônica que promove a pesquisa e ensino em Ciências Forenses. Vale a pena conferir!

"A Sociedade brasileira de Ciências Forenses é uma associação sem fins econômicos, voltada à promoção de pesquisas e ensino em Ciências Forenses, a estimular o contato entre profissionais da área, e o progresso das Ciências Forenses no Brasil (...)"

Confira também o estatuto.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Rui Barbosa - frase

 
"O primeiro de todos os deveres do homem, aonde quer que o leve a sua vocação ou a sua sorte, é a sinceridade, a verdade, a conformidade entre o que diz e o que sente, entre o que obra e o que diz."

... às vezes isso tem me dado uma dor de cabeça... (André Braga, funcionário público e blogueiro).

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Plantão do dia 05 de fevereiro

Depois de janeiro, com 13 levantamentos, iniciamos fevereiro com apenas um levantamento, por enquanto.

O Sistema de Gestão Operacional Unificado - Sisgou - registrou as ocorrências de cada um dos peritos plantonistas no dia 05 de fevereiro:


Percebam acima que nossa colega Suzana da Perícia da Força Nacional também estava de plantão e comentou comigo que estava tendo dificuldades em fazer fotografias à noite.

(Vejam um levantamento da Suzana neste link: "Plantão dia 11 de maio de 2013").

Coincidentemente o meu levantamento foi à noite e assim abusei da câmera para fazer testes.

Primeiro uma sequência de imagens do trajeto até a Central de Flagrantes e depois até o local dos exames (clique nas imagens para ampliar). Obviamente não foi utilizado o flash embutido.



No sentido horário, começando pelo canto superior esquerdo, seguimos a viatura da Polícia Civil que nos indicou o local dos exames. Na segunda imagem o registro da chuva que caía naquela madrugada (eram 4h36 no momento da foto). Choveu bastante em parte do trajeto (terceira imagem), mesmo assim abusei de tentar registrar a entrada do pólo industrial que fica na avenida Durval de Góes Monteiro tirando uma foto da minha janela com o vidro fechado (quarta imagem).

Nestas quatro primeiras imagens a viatura estava o tempo todo em movimento. Foi utilizada sensibilidade ISO 3200, diafragma f/4,2 compensação de exposição +2.0, usei o programa prioridade para obturador ajustado para 1/30 segundos. Embora seja uma velocidade muito lenta, a sensibilidade alta permitiu nitidez.

Usei também o redutor de vibração (VR), incluso em algumas objetivas Nikon.

Abaixo, ao estacionar a viatura, ainda fiz uma última foto de dentro da viatura. Não foi uma boa exposição. Não deu tempo para fazer novos ajustes. Desci e tirei fotos da fachada do imóvel a ser periciado.


Tirei duas fotos da fachada e abaixo mostro alguns detalhes de ambas.


O flash é uma luz branca e a câmera reconhece sua própria iluminação artificial quando acionada manualmente (no modo P) ou automaticamente (modo Auto). Se deixá-lo desligado a captura da imagem precisa receber ajustes de cor (controle de balanço de branco), mas costumo ser "preguiçoso" e ajusto posteriormente com o editor de imagem.

Observação: a D90 e a D7000, ambas da Nikon, possuem um ajuste fino de cores que dispensa qualquer uso de edição posterior, mas em perícia nem sempre tenho tempo de fazer ajustes finos.

A primeira característica marcante do uso do flash, e principalmente durante a chuva, é o "congelamento" dos pingos d'água! Vejam abaixo na primeira dupla de imagens comparativas (flash ligado à esquerda e desligado à direita):


Nas duas imagens acima percebe-se que a luz (amarela) do poste de iluminação pública ficou registrado num fio mais próximo. Mesmo com o flash a cor amarela não foi suprimida. Na segunda imagem o fio ficou muito próximo da borda da imagem.

Quando reduzimos a velocidade do obturador a tendência é os pingos d'água "riscarem" a imagem, como aparece na segunda imagem.

Abaixo a segunda dupla de imagens comparativas reforçam o "congelamento" dos pingos (indicados pelas setas brancas na primeira imagem).


Na terceira dupla de imagens, repetindo o mesmo local exibido na dupla anterior, tento indicar a presença de sombras e luzes que o uso do flash suprime quando ligado.


 Na primeira imagem registra-se apenas a luz do flash e assim ocorre o reflexo da parede vermelha sobre o cimentado molhado da calçada. Na segunda imagem, além de persistir o reflexo da parede, percebe-se ainda a luz que vem da porta aberta do imóvel a ser periciado. Essa mesma luz do primeiro cômodo é refletida no pavimento molhado (indicado por três setas brancas e nomenclatura).

Algumas vezes vemos coisas que nossas câmeras não sabem como registrar. Por isso é interessante estudar e fazer testes para, eventualmente, obter exatamente o que se visualiza a olho nu.

Este levantamento, feito de madrugada para examinar danos residenciais, me lembrou outra perícia que fiz em condições semelhantes, mas há oito anos (em 2006)! A chuva era a mesma com a desvantagem da inundação temporária da pista, mas o levantamento foi no final da tarde. Clique nas imagens para ampliar.



Retornamos para a base com o dia já claro.

Ao subir as escadas do Instituto de Criminalística, vemos o espaço em reforma do futuro laboratório do IC. Por enquanto utilizado apenas pelos felinos de ocasião!


***
Algo que sempre me deixa feliz pelo caráter de organização e informação são as placas de indicação e informação de diversas naturezas. Uma destas vi na Central de Flagrantes, quando fomos atender o local acima. Ela mostra todos os municípios de Alagoas e suas áreas de atendimento pela Polícia Civil. Isso é bom para o cidadão, mas é ótimo para o funcionário, que precisa saber para bom andamento de seu próprio trabalho.

No final do ano passado distribuí uma cópía do mapa rodoviário de Alagoas para cada uma das equipes plantonistas. Precisamos saber onde fica cada município. Ainda que existam outras fontes (celulares, p. ex.) o local de trabalho precisa lembrar e relembrar de suas rotinas para os funcionários.

Mapa de Alagoas e suas áreas de atendimento pela Polícia Civil.