Infelizmente estou um pouco atarefado neste momento e não estou conseguindo publicar o volume de fotografias que desejo para a finalidade deste blog. No entanto, prometo para breve, o resumo de alguns dos meus plantão (cotidiano da perícia) e comentários a respeito das experiências (fotografia e burocracia!), bem como estatísticas do meu trabalho individual.
Pensamento abaixo retirado do rodapé de uma mensagem de email.
"A diferença entre os países pobres e os ricos não é a idade do país, recursos naturais disponíveis, ou diferença intelectual significativa, raça ou a cor da pele. A diferença é a atitude das pessoas, moldada ao longo dos anos pela educação e pela cultura. Ao analisarmos a conduta das pessoas nos países ricos e desenvolvidos, constatamos que a grande maioria segue os seguintes princípios de vida: ética, integridade, responsabilidade, respeito às leis e regulamentos e ao direito dos demais cidadãos. Nos países pobres apenas uma minoria segue esses princípios básicos em sua vida diária. Não somos pobres porque nos faltam recursos naturais ou porque a natureza foi cruel conosco. Somos pobres porque nos falta atitude. Nos falta vontade para cumprir e ensinar esses princípios de funcionamento das sociedades ricas e desenvolvidas."
Uma visão geral do cotidiano de um Perito Criminal do Estado de Alagoas e suas impressões, opiniões e sugestões para compreender e melhorar esse serviço público.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
domingo, 27 de maio de 2012
Discursos políticos - frase
"Para cada situação política há um discurso pronto, de que se trocam as vírgulas."
Carlos Drummond de Andrade
sábado, 12 de maio de 2012
Manutenção da Criminalística
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| Mesa de trabalho na oficina de luz forense. |
Assino dois diários na internet (blogs). Um sobre
criminalística, meu ofício e “ganha-pão”. O outro, um prosaico resumo das
atividades de síndico em um condomínio. Desde que um coronel assumiu a direção
de um órgão que se arvorava independente, fiquei um pouco desestimulado. Vicissitudes
da política e da burocracia. Preferi desviar minhas energias para a
administração voluntária de um condomínio.
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| Exemplo de amostra sob luz forense |
O blog de criminalística possui a metade das publicações do
blog do condomínio, mas curiosamente possui o dobro de visitas do último.
Explica-se.
Um condomínio com boa administração mantém-se estável e
ninguém percebe sua existência. Ele está ali como suporte do médico, advogado,
engenheiro e tantos outros profissionais e pessoas do lar que tem muito mais o
que fazer que intervir na manutenção de seus recursos básicos. Já a atividade
de criminalística é um eterno pesquisar novos recursos para atender sua
finalidade de elucidação de condutas criminosas. O blog poderia ter apenas uma
publicação, mas todo perito, em algum momento, irá consultá-la. É uma
necessidade.
Não tendo mais espaço para atuar no meu trabalho, como
funcionário, decidi manter-me “lubrificado” auxiliando na manutenção de um
edifício, com todos os seus detalhes, do subsolo ao telhado. É revigorante
tratar com as pessoas. Condôminos, inquilinos, prestadores de serviços e
produtos. Aprende-se muito.
Nosso trabalho, atualmente, pode não oferecer muito, mas a
filosofia embutida, a ciência da criminalística, ainda é um manancial do qual
não se pode abrir mão. Não esqueçamos da distinção entre voluntariado e
profissionalismo. Ali se faz porque se pode e se é muito, aqui só se faz se
investir. Parar, por qualquer motivo que seja, é assinar sua certidão de óbito
profissional.
Estejamos tristes, mas não mortos. A instrução será ministrada. Os que puderem ouvir, não terão
prejuízo.
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| Amostras sob diversos comprimentos de onda. |
sábado, 21 de abril de 2012
Nova delegacia. Nova perícia?
Desde que começou o ano de 2012, até este feriado de 21
de abril, executei 30 levantamentos periciais em locais de crime que produziram
3080 fotografias. Elaborei 163 páginas de laudos e mesmo assim só cumpri um
terço do volume total. Minha equipe possui 4 peritos (eu e mais três) para
cobrir todo o Estado de Alagoas. Agora mesmo um colega está periciando a mais
de 200 km de distância da capital. Neste cenário, recebo a seguinte notícia: “Delegacia
de Homicídios: nova estrutura funcionará em maio”. Veja link abaixo:
Curioso é ler o seguinte trecho:
“Outro avanço significativo será a presença permanente de
equipes de peritos do Instituto de Criminalística (IC) na base da delegacia
para a realização dos exames periciais nos locais onde os crimes acontecerem. ‘Os
peritos acompanharão nossas equipes e isso vai agilizar o trabalho de
investigação’, acrescenta”.
Nada do que foi noticiado é novidade no mundo
jurídico-administrativo atual. Tudo já devia estar funcionando. Por algum
motivo, algo, ou tudo, não ia bem. Mas acharam uma solução! Vamos juntar um “grupinho”
para trabalhar naquilo que já devíamos fazer em cada uma das delegacias! E se
for usando o chapéu dos outros, melhor!
Já que os peritos fazem perícia de homicídio de qualquer
jeito, seja dentro da estrutura do Instituto de Criminalística, seja na
delegacia de polícia civil, desejo ao menos saber como fazer parte do “grupinho”.
Pelo menos deixo de ser “clínico geral”!
Quem serão os “homenageados”? Os amigos do rei?
O grande desafio é saber se vamos especializar a perícia
alagoana com seu minguado número de peritos ou mantemos a “clínica geral” com seus
resultados insatisfatórios. É um problema do tipo “cobertor curto”.
Transferir peritos para a nova delegacia especializada
significa assoberbar esses peritos com numerosos levantamentos em locais de
homicídios, nosso “feijão com arroz” em Alagoas. E, por outro lado, manter os
demais peritos na “clínica geral”, incluindo mortes violentas como acidentes e
suicídios.
Quem sai ganhando com essa estratégia?
quinta-feira, 8 de março de 2012
Isolamento em local de crime - debate teórico
É
uma indagação universal no meio policial: o que é um isolamento correto de
local de crime?
Eu
diria que a indagação fundamental é: o que seria “correto” num local de crime?
Temos duas respostas.
1)
Em uma situação de regulamentação legal bem definida o “correto” é o que prevê
o “POP” (Procedimento Operacional Padrão). Costumo usar a expressão “protocolo
de comportamento em local de crime”. Seria como comportar-se, conduzir-se em
local de crime. Quem? Qualquer indivíduo a quem se possa atribuir
responsabilidades para minimizar os efeitos do evento de desordem (crime). Esse
indivíduo pode ser desde o perito, profissional específico e qualificado,
passando pelo policial preparado pelo Estado, até o cidadão mais simples com
discernimento suficiente para saber evitar um mal maior depois de presenciar um
ato criminoso. As responsabilidades também vão desde o completo levantamento do
local (perito criminal), passando pela manutenção geral do estado das coisas
(policial civil e militar), até, no mínimo, informar todos os detalhes do
evento (cidadãos que testemunharam o fato). Esta previsão de comportamento
(POP) deve ser posta pelo Estado que é quem detem a exclusividade de tratamento
(persecução criminal) destes casos.
2)
A segunda resposta contempla uma situação em que não há previsão institucional
do comportamento dos principais agentes em local de crime (perito, policial e
cidadão). “Correto”, neste caso, pode ser o que é correntemente praticado
pelo costume, pois não agride os hábitos arraigados nas instituições
(pericial e policial) e no meio social (cidadãos), ainda que não estejam em
conformidade com o que já foi pesquisado e comprovado cientificamente como
sendo o mais vantajoso para sanar os prejuízos da desordem (crime). Este é o
pior cenário.
Um
desdobramento mais positivo da segunda resposta é quando os profissionais da
área (peritos e policiais) procuram definir, ainda que informalmente, que o “correto”
é o uso de certas regras de bom senso e proximidade com o que a literatura
especializada recomenda como benéfico. Por exemplo, para os policiais, sugerir
uso da fita zebrada e evitar manipulação de objetos pessoais da vítima antes da
chegada dos peritos.
Excluindo
os extremos: obediência “cega” a regras restritas (POP’s inadequados) ou ausência
de normas somada a hábitos “viciados”, temos uma situação bastante conhecida
pelos agentes envolvidos (peritos, policiais e cidadãos). Nenhum local de crime
é tão “normatizado” a ponto de absorver integralmente os POP’s, nem tão caótico
que não comporte algum bom senso criativo. A “virtude” estará no meio.
Não
existe o que chamamos de “isolamento CORRETO de local de crime”, mas,
certamente, um “isolamento ADEQUADO de local de crime”. E ele se dará com a
orientação institucional dos POP’s – para fornecer idoneidade legal ao levantamento
pericial – e o uso do bom senso, cautela e zelo necessários às peculiaridades
que o caso solicitar – para alcançar os objetivos previstos na manutenção geral
da ordem das coisas.
A
imaginação humana é rica e a maneira de se praticar um ato desordeiro evolui
tanto quanto as estratégias e os mecanismos de sua execução (ciência e
tecnologia). É preciso que os agentes envolvidos (peritos, policiais e
cidadãos) acompanhem esta evolução sob pena de se tornarem obsoletos e inúteis.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Primeiro plantão de março - caso 3 de 3
Ao retornar para a base do IC por volta da uma da manhã, ainda fui selecionar e editar fotografias. Adiantei este trabalho até aproximadamente 3h da manhã. Consegui dormir até o chamamento do terceiro caso do plantão.
Caso 3 - morte violenta - arma de fogo - na Barra Nova - 07h23
A esta hora da manhã o sol ainda está fraco e bem inclinado. Não pude evitar alguma sombra mais forte, mas pelo menos não estava fazendo muito calor. Não suei muito, mas suei!
Duas observações fotográficas neste terceiro caso: posicionamento do fotógrafo com o sol baixo no horizonte e possibilidade de ampliações de detalhes na cena de crime.
01 - Posicionamento do fotógrafo - observem a sequência abaixo.
Na primeira imagem o fotógrafo (eu!) está mal posicionado ao registrar seu assunto. Fotografou-se!
Na segunda imagem o fotógrafo fez o devido posicionamento, mas o assunto ficou mais afastado. Ainda dá para ver a sombra do fotógrafo, mas o assunto está livre de interferências.
Na terceira imagem percebemos o uso do zoom, ou seja, é preciso, após promover o afastamento ou reposicionamento do fotógrafo, refazer o enquadramento! Muitas interferências podem ser evitadas desta maneira (luz solar direta, reflexos, "poluição" visual, etc.).
02 - Quase toda cena de crime possui detalhes que precisam ser registrados. Como se diz, são nos detalhes que podemos encontrar as respostas para a ação delituosa. O fotógrafo precisa estar consciente desta possibilidade.
Na sequência abaixo eu faço uma aproximação gradual de uma determinada gota de sangue localizada sobre o pavimento do logradouro (solo arenoso).
Aparentemente este tipo de observação e registro de manchas de sangue podem não resultar nenhum interesse, mas é justamente o contrário. Nas duas últimas imagens percebem-se a formação de gotas satélites oriundas da gota de sangue inicial. Isso é fundamental para, por exemplo, estabelecer a altura da fonte de sangue. Toda uma dinâmica em cena de crime pode ser desvendada pela leitura desses pormenores.
Para finalizar o plantão, voltamos pela orla de Maceió, justamente no horário de término do plantão.
Caso 3 - morte violenta - arma de fogo - na Barra Nova - 07h23
A esta hora da manhã o sol ainda está fraco e bem inclinado. Não pude evitar alguma sombra mais forte, mas pelo menos não estava fazendo muito calor. Não suei muito, mas suei!
Duas observações fotográficas neste terceiro caso: posicionamento do fotógrafo com o sol baixo no horizonte e possibilidade de ampliações de detalhes na cena de crime.
01 - Posicionamento do fotógrafo - observem a sequência abaixo.
Na primeira imagem o fotógrafo (eu!) está mal posicionado ao registrar seu assunto. Fotografou-se!
| Interferência da sombra do fotógrafo. |
Na segunda imagem o fotógrafo fez o devido posicionamento, mas o assunto ficou mais afastado. Ainda dá para ver a sombra do fotógrafo, mas o assunto está livre de interferências.
| Reposicionamento do fotógrafo com o seu afastamento. |
Na terceira imagem percebemos o uso do zoom, ou seja, é preciso, após promover o afastamento ou reposicionamento do fotógrafo, refazer o enquadramento! Muitas interferências podem ser evitadas desta maneira (luz solar direta, reflexos, "poluição" visual, etc.).
| Aproximação do assunto, agora livre de interferências, com o uso do zoom. |
02 - Quase toda cena de crime possui detalhes que precisam ser registrados. Como se diz, são nos detalhes que podemos encontrar as respostas para a ação delituosa. O fotógrafo precisa estar consciente desta possibilidade.
Na sequência abaixo eu faço uma aproximação gradual de uma determinada gota de sangue localizada sobre o pavimento do logradouro (solo arenoso).
| Foto "panorâmica" da gota de sangue. Indicada pela seta branca. |
| Vista aproximada da foto anterior. |
| Continuidade da aproximação promovida pelo deslocamento do fotógrafo. |
| Aproximação máxima do equipamento em local de crime. |
| Ampliação digital efetuada no editor de imagem. |
Para finalizar o plantão, voltamos pela orla de Maceió, justamente no horário de término do plantão.
| Vista da orla de Maceió - motivo pelo qual os turistas adoram visitar nossas praias!!! |
Primeiro plantão de março - caso 2 de 3
O segundo levantamento foi cronometrado às 23h58 - hora em que eu marco um ponto no GPS, no momento em que chego na cena de crime. Curiosamente quando saí da viatura, meu relógio de pulso tocou o alarme de meia-noite. Então, dois minutos entre chegar de carro e descer do carro!
Caso 02 - morte violenta - arma de fogo - no Vale do Reginaldo - 23h58
Foi um caso marcado por mais uma visita ao mesmo local onde diversos peritos já enfrentaram a mesmíssima situação: cadáver alvejado por arma de fogo e lançado nas águas do córrego que corre na cidade.
Lembrou-me o mesmo córrego que passa no Centro de Belo Horizonte! Sim, também temos o nosso "Arruda". Aqui é conhecido como Riacho Salgadinho. Vejam a semelhança abaixo:
Talvez tanto lá, quanto aqui, são áreas desprovidas de interesse estatal. Mantem-se como atrativos para indivíduos carentes e outros de má índole que terminam por praticar atos violentos e marginais à lei. A consequência é trabalho para as autoridades públicas.
Abaixo uma ampliação do local dos exames. Próximo ao viatudo que une dois bairros.
O Corpo de Bombeiros Militar já estava no local, o que facilitou o resgate do corpo. Os exames perinecroscópicos se desenvolveram na margem do córrego.
Fotograficamente a principal dificuldade foi a falta de luz. O local não tem uma iluminação artificial abundante. O flash é necessário. Mesmo assim faço o clareamento no editor de imagem. Consigo bons resultados.
Depois de iniciar os levantamentos às 17h e passar ao segundo à meia-noite, o próximo levantamento só se deu pela manhã, conforme relatarei no próximo post.
Caso 02 - morte violenta - arma de fogo - no Vale do Reginaldo - 23h58
Foi um caso marcado por mais uma visita ao mesmo local onde diversos peritos já enfrentaram a mesmíssima situação: cadáver alvejado por arma de fogo e lançado nas águas do córrego que corre na cidade.
Lembrou-me o mesmo córrego que passa no Centro de Belo Horizonte! Sim, também temos o nosso "Arruda". Aqui é conhecido como Riacho Salgadinho. Vejam a semelhança abaixo:
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| Córrego Arruda, assinalado com a cor vermelha, passando próximo da Rodoviária de Belo Horizonte. |
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| Riacho Salgadinho, assinalado com a cor vermelha, passando próximo da Rodoviária de Maceió. |
Abaixo uma ampliação do local dos exames. Próximo ao viatudo que une dois bairros.
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| Detalhe do local dos exames. |
| Vista geral da ponte que une as margens. Seta indica posição do cadáver. |
Depois de iniciar os levantamentos às 17h e passar ao segundo à meia-noite, o próximo levantamento só se deu pela manhã, conforme relatarei no próximo post.
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