domingo, 23 de abril de 2017

Acompanhando levantamento - 23 de abril

Sem a obrigatoriedade de dois peritos em local de crime, dificilmente acompanhamos o trabalho dos colegas. Mas resolvi acompanhar o colega Charles Mariano.

Então segue nossa rotina aproximada para um caso de homicídio em logradouro público.

Hora do chamado: 14:20 h.

O colega, de prontidão no Instituto de Criminalística, é chamado até nossa Central de Equipamentos onde recebe as primeiras informações e a partir daí solicita os equipamentos necessários para o atendimento.


Neste caso a equipe foi composta pelo motorista, o perito e eu como fotógrafo.

Percurso de 17,7 km até o bairro da parte alta da cidade. Local aberto - logradouro público. Vítima alvejada por arma de fogo, à pé na calçada.


O local já estava isolado por fita zebrada. Charles começa o levantamento tomando mais informações junto à guarnição da Polícia Militar e eu inicio as fotografias panorâmicas da cena.


Artefatos balísticos foram constatados na área. Então é feita a numeração e coleta deles. Partindo dos pontos mais distantes vamos nos aproximando da vítima para examiná-la.


Esta vítima foi alvejada em regiões do corpo que estavam vestidas, então, em temos de impacto de projéteis, temos "camadas" para serem examinadas.

Um dos disparos transfixou a bermuda, a cueca e finalmente atingiu a pele, alojando-se na vítima. Vejam abaixo esta sequência de "camadas" registradas:

Transfixação de tecidos pelo projétil até atingir a pele e se alojar na vítima.

Outro disparo produziu interessante dinâmica que ficou bem caracterizada na roupa e superfície da pele:

Dinâmica diferenciada de projétil. Não rompeu a pele por esta
estar encostada no pavimento

A vítima suportou pelo menos um disparo de arma de fogo quando estava deitada sobre o pavimento da calçada. O projétil que penetrou nas costas (vítima em posição de decúbito ventral), percorreu todo o torso e na hora de romper a pele, foi amparado pelo pavimento encostado na pele do abdômen. A energia do projétil lesionou a pele e ainda imprimiu a camisa contra o pavimento. O esgarçamento tinha sujidades do pavimento aderido nele. Vide imagem abaixo.

Esgarçamento sujo de pó da calçada.

Ao final dos trabalho, o cadáver recebe uma pulseira de identificação e é recolhido pela equipe do Instituto Médico Legal.

Todos os trabalhos - Polícia Militar, Instituto de Criminalística, Instituto Médico Legal e Polícia Civil, foram também registrados pela imprensa presente no local, prudentemente posicionada atrás do isolamento.


Agradecemos a colaboração de todos os envolvidos no levantamento e voltamos para a base.


Inicia-se a segunda etapa dos trabalhos: encaminhamento do material coletado para exames complementares e elaboração do laudo pericial que seguirá para a Delegacia de Homicídios de Maceió.

Começando o plantão...

A vantagem do sistema de plantão é a seguinte: todo dia pode ser dia de trabalho. Seja dia útil, feriado ou... domingo!

Então vamos lá. Começando o plantão neste domingo.

Pátio de estacionamento do Instituto de Criminalística. As viaturas novas ao fundo.

Até o momento sem ocorrências.

Registrei as novas viaturas já caracterizadas (adesivos).

Marca Citroen, modelo Aircross.

Aos poucos elas vão se incorporando ao cotidiano do instituto. Há rodízio e preparativos para começarem a sair para locais de crime.

Fotografias feitas com celular, sob céu nublado.

As equipes em um local de crime

Investigar uma conduta delituosa envolve algumas rotinas pré-concebidas, sejam doutrinárias - via literatura específica, sejam normatizadas - via legislação específica. Dentro destas orientações, há uma composição dos agentes de campo: PM, PC, IC e IML (vide denominações abaixo).

Infelizmente a exiguidade de recursos, relativamente comum nas organizações públicas, dificulta o atendimento contínuo das exigências previstas. No entanto, no último plantão do dia 18, pude trabalhar com o mínimo necessário!

IML, Polícia Militar, IC e Polícia Civil, em ordem de afastamento na imagem.

Ás vezes nos enclausuramos em nossa redoma de atividades e imaginamos o mundo composto apenas pelo que somos ou fazemos. Local de crime é - também - manutenção da ordem (Polícia Militar), investigação subjetiva - de pessoas - (Polícia Civil) e investigação material (Perícia Oficial - Instituto de Criminalística e Médico Legal). É um trabalho de equipe!

Obviamente pode haver outras contribuições. Imaginem o caso de socorro médico, resgate em locais de difícil acesso ou envolvendo produtos perigosos, por exemplo.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

De volta aos plantões - dia 18 de abril.

Vou começar dizendo que o "retorno" não é aos plantões, porque não parei, mas tentarei atualizar as publicações voltadas a esse cotidiano. Desta vez um pouco mais impulsionado com dicas de fotografias de campo.

Sendo o primeiro do rodízio na equipe do dia (cinco peritos para todo o Estado), cheguei cedo e fiquei de prontidão editando laudos antigos na sala da equipe "F", onde estou lotado.

O computador é da sala/IC, a bagunça restante é minha, incluindo o capacete!

A primeira ocorrência foi informada às 8h. Indivíduo alvejado por arma de fogo na rua. Suposta reação à assalto. Imaginei logo um ou poucos disparos e manchas de sangue dispostas por uma grande área por causa da fuga ou socorro da vítima.

Vista geral do primeiro levantamento do dia.

Para minha surpresa, não havia muitas manchas. Apenas empoçamento e escorrimento no ponto onde estava o cadáver. Ou seja, concentração da ação violenta no ponto onde foi encontrado o corpo.

Observem acima que as sombras sobre os veículos estão difusas. O tempo estava nublado quando chegamos. Depois o céu ficou claro e o sol muito forte. Vejam abaixo os efeitos.


Abaixo a "dica" de como amenizar ou mesmo corrigir o efeito da sombra "dura" e seu alto contraste: peça ao colega que faça sombra sobre o assunto a ser fotografado. Se não tiver equipamento específico, basta posicionar seu próprio corpo.


Eliminando as linhas da sombra dura, facilita-se a visualização do conjunto original. Haverá menos elementos para se visualizar, dirigindo o olhar para o que é relevante. A menor intensidade luminosa diminui a saturação de cores, o que também facilita para a maioria das situações.

Abaixo uma vista detalhada de um dos ferimentos. Foto feita no local, também com o assunto "sombreado", mas com o flash embutido ligado (modo "Program") para iluminar a cavidade.

O ferimento foi limpo, sendo possível observar efeitos secundários (pontos sobre a pele).

Já a fotografia dos artefatos foi feita no Instituto. Desse modo controlei a iluminação difundindo a luz do flash embutido com uma folha de papel e rebatendo lateralmente com outras folhas ao redor dos estojos. Vejam abaixo:

Flash embutido difundido e rebatido ao redor dos estojos.

Assim que cheguei neste local, houve outra solicitação na região metropolitana. Terminei o levantamento e segui para o segundo local.

Desta vez tínhamos a chance de levar o cadáver para dentro da residência e assim trabalhar totalmente sobre a sombra.

Segundo levantamento. Cadáver sobre a soleira da porta.

Neste caso fiz duas fotos de dentro da residência para fora para mostrar o efeito do vão iluminado contra um cômodo escuro e como solucionar usando o flash "forçado" (modo "Program").


A câmera mede a luz no centro da imagem, e como o vão está iluminado, ela "mistura" a área escura com a clara e acredita que o cinza resultante está em toda a cena. Para fornecer a luz que falta, ligamos o flash.

Por isso que o modo "Auto" da câmera nesta hora não consegue fazer o registro visto na segunda imagem acima.

Trouxemos o corpo para dentro da residência e finalizamos os trabalhos sob a sombra.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Visita dos alunos do CFAP

Ontem, 5 de dezembro, vinte e oito alunos do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da Polícia Militar de Alagoas visitaram as instalações do Instituto de Criminalística.


O itinerário começou na sala de uma das equipes plantonistas que atendem locais de crime e passou pelos setores de Documentoscopia, Balística e Laboratório (Química e DNA).

Ao longo da visita os alunos puderam conhecer a estrutura da perícia e ouvir as explicações dos peritos criminais lotados nos respectivos setores.


A visita era atividade extracurricular da disciplina de "Isolamento e Preservação de Local de Crime". Então foi possível reforçar as principais atitudes que auxiliam na elucidação de alguns crimes cometidos nas ruas.

A perita Milena Testa apresentou os mais modernos equipamentos do setor de Documentoscopia e fez demonstrações. Mostrou que atende demandas tanto internas (coletas de locais de crime), quanto externas (solicitações de delegacias e Poder Judiciário).


Na Balística foram apresentados os tipos de exames executados e a demanda atendida.

Explanações no setor de Balística: perito criminal Lucas Nascimento.

Os peritos criminais Ricardo Leopoldo e Ângelo Lima explicaram o fluxo de trabalho e os exames de microcomparação balística. Também foram feitas demonstrações.



No laboratório, os peritos criminais Rosana Coutinho e Ken Ichi Namba apresentaram os setores de DNA e química forense.



Mais uma vez foram lembrados os benefícios de um isolamento e preservação bem feitos do local de crime. Os vestígios tratados no laboratório são sensíveis e facilmente degradáveis. Por outro lado, podem identificar substâncias e indicar autorias com uma precisão superior.

Ao final salientamos a importância da visita e o estreitamento das relações entre as instituições policial e pericial.

Final da visita com incentivo a novas visitas e trocas de ideias.

Links disponíveis:
Alunos do CFAP conhecem sede do IC (Perícia Oficial)
Alunos do CFAP conhecem sede do IC (Polícia Militar)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Dia do Perito Criminal - 4 de dezembro



"Resgatando a história, lembramos que a escolha do dia 4 de dezembro como o Dia Nacional do Perito Criminal foi uma homenagem ao patrono dos peritos criminais, Otacílio de Souza Filho, que nasceu nesse dia e morreu tragicamente, em 1976, após sofrer uma queda de um precipício, quando periciava duas mortes ocorridas em local de difícil acesso, no interior do Estado de Minas Gerais. As vítimas, um casal de geólogos, ao colherem amostras de rochas para estudos, caíram de um desfiladeiro vindo a falecer. O local, de difícil acesso, provocou outra vítima, desta vez o perito Otacilio de Souza Filho, que ao tentar chegar até o local onde encontravam-se os corpos das vítimas, perdeu o equilíbrio e caiu, vindo a falecer de forma idêntica do casal de geólogos. A data de 4 de Dezembro, Dia Nacional do Perito Oficial, foi criada através da Lei nº 11.654, de 15 de abril de 2008."

Texto pesquisado nos sites abaixo:

Instituto Geral de Perícias do Rio Grande do Sul
Instituto Geral de Perícias de Santa Catarina


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Curso de Fotografia em Sergipe


De 21 a 25 de novembro ministramos um curso de fotografia forense em Aracaju, Sergipe.

Foi uma iniciativa do Sindicato dos Peritos Oficiais de Sergipe - Sinpose com a colaboração da Academia de Polícia Civil de Sergipe.
Havia duas situações interessantes para este curso: tanto os peritos quanto as câmeras entraram recentemente para o serviço público!


Nas aulas foram utilizados dois modelos de câmeras reflex: a Nikon D3300 e a Canon T5.

Para bom entendimento do tema, algumas perguntas precisam ser respondidas (Heptâmetro de Quintiliano): o que é fotografia forense? Quem a produz e por quê? Onde e quando é produzida? E, finalmente, como e com o que é produzido o registro fotográfico forense?

Geralmente as duas últimas perguntas são mais críticas. Os peritos oficiais já sabem o que é, quem deve fazer, onde, quando e por quê fazer. Resta aprender a usar o novo equipamento e executar as especificidades da perícia.



Não deixamos de fortalecer a responsabilidade do perito pelo levantamento fotográfico e informamos as exigências legais de sua execução.

Inicialmente apreciamos diversas imagens de modo a possibilitar a "educação" do olhar. É importante identificar a luz e sua direção sobre os objetos a serem fotografados. Isso auxilia na obtenção da imagem em condições difíceis de iluminação, por exemplo.


Ultrapassada a apreciação e execução de uma fotografia comum, passamos a conhecer os parâmetros que podem ser controlados numa câmera ajustável como as do tipo "reflex" que são atualmente disponibilizadas nos institutos de criminalística do país.


Exposta a teoria, significando que vamos lembrá-la constantemente durante as prática, vamos às práticas!

Primeiro um teste rápido de segurança no disparo e enquadramento do assunto.


Depois vários exercícios de foco, travamento do foco, reenquadramento, profundidade de campo e distância focal.


Um exercício de "luz de preenchimento", para assuntos sombreados cuja medição da luz pela câmera desligaria o flash automático.


Depois dos exercícios de "sala de aula" (sombra e água fresca), passo aos "exercícios de campo" (muito sol e suor!). Apesar do desconforto, é uma ótima aproximação de como, frequentemente, o perito é exigido para tirar suas fotografias forenses.



Montei a cena no estacionamento da Acadepol e usei meu próprio veículo que já vinha com "denominação" adequada!


Experimentamos as tomadas gerais, relacionadas e detalhadas, verificando ainda distâncias focais (18 a 55 mm) e testando o uso de escalas nos vestígios menores.

No último dia fizemos exercício prático em sala escura para testar as configurações em baixíssima luminosidade. Assim fizemos captura de feixe de laser verde e registro de material luminescente (mostrador de relógio de pulso).


A todo instante os alunos testavam as instruções e faziam suas próprias fotos instantâneas. Registo duas abaixo:

Uma interessante composição do perito Uilames. Impressão digital
nítida no primeiro plano, escala informando o evento e o fotógrafo
discretamente no segundo plano.

A perita Thayse registrou seu próprio ato de fotografar. Vê-se no primeiro plano, nítido,
a cena que se deseja registrar. E ao fundo a cena em si, desfocada para sobressair o interesse
na operação da câmera fotografada.

Acredito que o diferencial do curso é aproximar alunos de alguém "experimentado", mas que muitas vezes a coisa se revela apenas numa leitura antecedente dos manuais dos equipamentos e dos livros de teoria. A prática reiterada faz do aluno, mestre. E não precisa ser a trabalho. Informalmente podemos nos aprimorar. Neste aspecto senti muito entusiasmo e energia nos colegas de Sergipe. Espero retornar para aprender ainda mais.


Sugestão de links:
Link para manual da Canon T5.
Link para manual da Nikon D3300.
Apostila "Aprenda a fotografar em 7 lições", de Cláudia Regina.