segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Catálogo Sirchie 2014/2015

São 453 páginas impressas, mas é possível obter a versão eletrônica em PDF, em espanhol e em inglês (clique neste link).

Copiei algumas imagens para comentar. Não chega nem perto das (literalmente falando) centenas de páginas do catálogo. Apenas pincei alguns itens em míseras vinte páginas.

Um produto novo ("new") é uma barraca que protege vestígios em cenas de crime:

Barraca para cobrir vestígios em locais de crime.

Encontrei algo similar na semana passada no comércio local:

Produto similar no comércio local.

Embora menor, é possível adaptar para pesquisas minuciosas ou encontrar similares maiores que sei que existem.

Um produto interessante, e que já tive necessidade durante levantamentos, é um anteparo para proteger a cena de crime de olhares curiosos ou, mais acertadamente, preservar o cidadão comum de visualizar cenas chocantes.

 

Observando seus componentes (canos PVC) não é difícil construir nosso próprio anteparo. A solução é muito simples e barata. O maior empecilho no seu emprego é justamente a cultura da instituição que exerce esta atividade. Essa é a conclusão a que quero chegar no final desta publicação: certas opções, apesar de viáveis, não são praticadas por mero desapreço ou desatenção.

Emprego de anteparo para resguardar cenas chocantes.

Acima ilustra-se a utilização do anteparo que resguarda cenas desagradáveis. Um cuidado que todo profissional de segurança pública deve zelar. Não esgotamos nossas funções na descrição do cargo, mas no conjunto de tarefas que restabeleçam a tranquilidade social.

Um outro produto do catálogo é uma espécie de "tapete" ou "almofada" para proteger vestígios em cenas de crime. Na verdade uma chapa de aço dobrada para suportar o trânsito do examinador minimizando a destruição de vestígios na cena:

Protetores de vestígios - viabiliza o trânsito do examinador.

Eventualmente poderíamos dispensar este produto se pensarmos em processar primeiro os vestígios que nos impedem de chegar a outro conjunto de vestígios. Seria uma questão de planejamento. Mas se pensarmos que determinados vestígios se degradam antes de outros, então o vestígio prioritário deve ser acessado o mais rápido possível.

A disponibilização comercial deste produto me faz pensar nesta peculiaridade do levantamento pericial. Este é outro ponto que eu gostaria de registrar ao se consultar um mero catálogo de produtos. Ele nos faz imaginar se estamos no mesmo nível do comerciante ou se sentimos falta de algum produto que o comerciante não disponibilizou/imaginou. Quem dirige quem?

Um exemplo deste questionamento é o produto abaixo:

 

Somos acostumados a ver marcação de vestígios em área urbanizada e em locais fechados (cômodos de imóveis, p. ex.), mas e em campo aberto com vegetação alta? Vejam que o kit é específico para visualização dos marcadores em situações deste tipo. E qual seria a razão para se fotografar a cena com todos os vestígios devidamente marcados, situados e indexados?

Mais uma vez a pergunta: quem dirige quem?

Gostei de uma forma de arquivamento dos indexadores. Vejam fotos abaixo:

 


Até então tenho feito "pacotes" dos marcadores que me interessam e deixo-os soltos dentro da maleta de campo. Numa caixa como a ilustrada as coisas ficam mais organizadas.

Gostei de ver os kits de material fotográfico para campo. São classificados em básico, avançado e profissional.

 

O kit básico possui apenas uma câmera compacta (primeira imagem acima). O kit "avançado" mostra uma câmera tipo "bridge" (intermediária entre compacta e uma DSLR - Digital Single Lens Reflex) e adiciona mais alguns itens de apoio (marcadores e escalas).

O kit profissional (mostrado abaixo) não apenas explora o modelo DSLR como oferece opções de troca de objetivas e uso de flash auxiliar.


Utilizando-me do catálogo para me "medir", comento sobre o meu kit pessoal de fotografia.

Uso uma câmera DSLR (Nikon D90 - fora de linha, mas consagrada pelos especialistas, hoje eu compraria uma D7000 da mesma marca!) com uma única objetiva com zoom (18-105 mm). Não tenho flash adicional, mas fazendo constantes ajustes na câmera consigo obter resultados satisfatórios nas situações de baixa iluminação.

Então é interessante se consultar prateleiras virtuais para se saber se o mercado segue o que você pratica ou a doutrina recomenda, ou ainda se, por acaso, você está defasado até mesmo com o mercado.

Por último, verifiquei um kit apenas de marcadores, escalas e indexadores:

 

Já montei dois destes kits. Mais modestos, obviamente. E ficaram disponíveis para as equipes de levantamento externo. Infelizmente, nem eu, nem a instituição fez a reposição e já não existem. Mas muitos peritos possuem seus próprios kits e bem satisfatórios. Publicarei oportunamente.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Plantão dia 10 de agosto - acompanhando colega

Desta vez fui literalmente de carona no banco traseiro da viatura. Fui acompanhar nosso colega Charles, com a condução da viatura pelo colega Jairo.

Saindo de Maceió às 18h30.

Foram duas solicitações. A primeira em Arapiraca, homicídio em logradouro público.

Chegando no local às 21h40.

Como começou a chover, pedi para ficar na viatura. Não tínhamos guarda-chuvas para todos. Ou melhor, só tínhamos um, que ficou com Charles, já que ele empunhava a câmera fotográfica.

Charles sob chuva e protegendo a câmera.

Fui para ajudar justamente no levantamento fotográfico, mas com tanta chuva fiquei na viatura. Então tentei fazer algumas fotos, através do párabrisa encharcado e sem auxílio do limpador!

Se a pretensão fosse artística, teria havido algum lucro, mas só obtive alguma coisa desfocada, mas deu para registrar o trabalho.

Trabalho sob chuva o tempo inteiro.

Duas observações importantes. Primeiro o registro foi de dentro da viatura através de um vidro completamente molhado sob chuva constante. E, segundo, o levantamento foi feito durante todo o tempo sob chuva cerrada... Jairo teve de tirar e torcer a camisa para tirar o excesso de água. Charles teve um pouco mais de sorte, mas molhou as mangas da camisa e extremidades das calças.

O segundo levantamento foi mais tranquilo com relação ao ambiente. Suicídio por enforcamento dentro de residência no município de Major Isidoro.

Fachada do imóvel onde foi feito o levantamento do suicídio.

De início percebi uma problemática que merece uma "dica de fotografia"!

Estava garoando quando chegamos na residência e precisávamos registrar a fachada do imóvel. O problema é acionar o flash durante a chuva. Vejam na primeira imagem que os pingos de chuva mais próximos da câmera terminam por refletir a luz forte do flash.

Comparativo entre duas situações sob chuva.

Para evitar o aparecimento das circunferências brancas, uma solução é simplesmente desligar o flash e fazer os ajustes para a câmera capturar a luz ambiente, quando possível. Foi o caso. Acima temos um comparativo.

No ambiente interno encontrei outra situação para fazer comparações e sugerir melhorias na fotografia: o uso de difusão ou rebatimento da luz do flash.

Duas áreas desta imagem foram usadas para ilustrar os diversos modos de fotografia.

As imagens abaixo estão sem edição (clareamento e ou controle de nitidez). Apenas alterei a forma de usar ou não o flash com ajuste único na compensação de exposição na quarta imagem das duas fotografias abaixo.

Clique na imagem para ampliar.

Clique na imagem para ampliar.

Mantive a sensibilidade em ISO 800 (para diminuir o ruído). A objetiva estava estacionada em 18 mm (grande angular).

Eu me posicionei no cômodo da sala de jantar e meus colegas estavam no cômodo vizinho (cozinha) que se ligavam por um amplo portal (dá pra ver a viga na parte superior da imagem). Fiz o desfoque proposital sobre o cadáver da vítima (centro da imagem).

Observado que as melhores imagens são as que foram tiradas com difusor, abaixo fiz uma edição para melhorar ainda mais a captura.

 

Vale lembrar que a edição é uma melhoria sobre o que já está bom. Não serve para "salvar" fotos, embora seja possível fazer alguma coisa em fotos escuras (as claras já perderam a informação).

Abaixo mais alguns registros deste segundo levantamento. Já lançando mão da difusão de luz.

Clique na imagem para ampliar.

Abaixo um flagrante do flash disparado pelo meu colega. Claro que fiz várias fotos até coincidir o tempo que ele fotografava e eu registrava.

Um detalhe interessante, a lanterna dele está acesa e iluminando a lateral da bolsa da câmera (estava pendurada no pulso). Vejam o semicírculo na coxa direita. Para mim isso deu mais vivacidade onde existem muitas áreas escuras no uniforme.


Eu não detalhei como foi feita a difusão de luz do flash. Farei isso na próxima publicação.

Voltamos para Maceió e chegamos no Instituto de Criminalística às 3h30 da manhã...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Segundo plantão do ano - amanhecendo no interior

Foram dois levantamentos. Um pela manhã com uma perícia "de ofício": levantamento de danos em propriedade rural, incêndio, em Jequiá da Praia. E o outro um acidente de trânsito no município de Cajueiro.

O primeiro local era em Jequiá da Praia, litoral Sul, 56 km de Maceió.

Incêndio em propriedade rural, com danos em lavoura e sistema de irrigação.

Destruição de lavoura e sistema de irrigação.

Pelas características da vegetação local, colecionei uma boa quantidade de carrapichos nas bordas da calça. Neste dia estava usando calça social, embora tenha adquirido recentemente uma calça operacional, mais resistente, inclusive a espinhos!


Percorremos boa parte da propriedade com a própria viatura. Apenas um trecho à pé. Com isso visualizamos boa parte dos danos e pudemos fazer algumas medidas com o GPS.


Iniciamos esses trabalhos às 10h48, com a saída do IC e retornamos às 16h23.

Na madrugada do dia seguinte, às 3h34, desloquei-me 76,4 km até Cajueiro para acompanhar o resgate dos cadáveres de um caminhão que caiu de uma ponte. Depois de colidir com um poste às margens da rodovia AL-210.

Clique nas imagens abaixo para ampliar.


Foram fotografias noturnas em que tive tempo para testar configurações da câmera fotográfica. Tive de aguardar o trabalho dos bombeiros militares.

Vejam abaixo uma ampliação da segunda imagem. Os detalhes foram garantidos pelo uso de baixo ISO e longa exposição. Aproveitando o momento certo em que há pouco movimento na cena, a captura fica excelente, mesmo há mais de 10 metros de distância do assunto fotografado.

Detalhe da última fotografia acima. Nível de detalhes garantido pela configuração da câmera.

Usei ISO 800, com 5 segundos de exposição e nenhuma compensação. O "tripé" foi o corrimão da ponte. Apoiei a câmera sobre a mão e esta sobre a estrutura de concreto.

Com a demora dos trabalhos de resgate não tivemos como não aguardar o amanhecer.

Vendo o dia nascer sobre a ponte do Rio Paraíba (rodovia AL-210).

Sob a observação de curiosos e passantes a equipe do Corpo de Bombeiros Militar fez seu trabalho sem demonstrar nenhum sinal de indisposição.

População atenta a todos os passos dos trabalhos de resgate.

Por isso consigno com a maior satisfação, em foto ampliada, o valoroso trabalho destes profissionais que tentam ultrapassar todas as dificuldades no local. Pude observar desde a escuridão da madrugada até o sol escaldante do início da manhã.

Trabalho em equipe do Corpo de Bombeiros Militar.

Fica meu elogio ao tenente Gênesis e à sua equipe: Cícero Daniel, Normã, Ubirajara e Rijjo.

A partir do resgate e com trabalho minucioso do policial civil Osman Teixeira, pudemos identificar as vítimas e registrar os vestígios relevantes que definiam o evento examinado.



Às 07h40 estávamos saindo do local e 10 minutos depois na estrada de volta ao Instituto de Criminalística.

Seguindo a viatura dos Bombeiros de volta à Maceió.

Chegamos no IC exatamente uma hora depois de finalizado o plantão. Ainda faltava baixar os dados da câmera, GPS e fazer o relatório do plantão.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Plantão do dia 18 de janeiro

Passei a manhã e a tarde envolvido com a reorganização da sala da equipe. Meu colega de sala, Charles Mariano, se empolgou em arrumar as coisas. Em breve publico as melhorias (organização sempre é bom!).

Esta "folga" no período diurno eu tive por estar mais avançado no rodízio. Aparentava ser um plantão calmo para um domingo. Mas o período noturno...

Às 18h30 recebo minha primeira chamada para Marechal Deodoro. Homicídio duplo.

Passamos na delegacia, mas com apenas um agente e três presos, deixamos a companhia da polícia civil de lado e fomos nos encontrar com a polícia militar no local do crime.

Seguindo para o local na zona rural de Marechal Deodoro.

Os cadáveres estavam distanciados em 226 metros. Ambos estavam numa estrada de barro, por entre propriedades rurais.


Para minha surpresa, em local tão ermo - estavam presentes apenas os policiais militares, os auxiliares do IML, eu e o motorista do IC - chegou para acompanhar os trabalhos o Secretário de Segurança do Estado de Alagoas.

Passamos algumas informações e seguimos o trabalho.

Dois pontos de curiosidade. Em um dos cadáveres havia início de postura de ovos de moscas. Essa atividade é rápida! Mesmo com cerca de quatro horas isso já havia começado em um deles.


A outra curiosidade foi a inventividade do nosso colega do IML, Carlos, que fixou uma lanterna de mão em seu boné! Luminosidade maior que o comum para este tipo de lanterna e mecanismo simples de fácil reprodução. Vou experimentar!

No mesmo local recebemos informação de uma segunda ocorrência: acidente de trânsito em Craíbas.

Chegando no segundo local da noite. Colisão de veículos em rodovia estadual.

Cumpre dizer que não havíamos jantado quando formos para Marechal Deodoro, por isso decidi pararmos em São Miguel dos Campos e comer um sanduíche. Saímos logo para Craíbas.

Outros dois pontos de curiosidade. A primeira nem é tão estranha assim. Em colisões intensas o derramamento de óleo sobre a pista é comum e marca bem distintamente o sítio de colisão. Foi o nosso caso. Imagem abaixo.

Mancha de óleo que define o sítio de colisão.

Quando não é o óleo, é a escarificação sobre o pavimento provocada por alguma parte metálica dos veículos. Isso marca bem a dinâmica do evento.

A outra curiosidade, também não incomum, foi a transferência de tintas. Neste caso não apenas a cor da carroceria da motocicleta passou para a lataria do veículo, como também a cor das vestes da vítima.



O forte impacto de uma colisão produz sinais interessantes que denunciam facilmente muitas etapas do evento. Também neste local recebemos notícia de que havia uma morte suspeita para ser investigada no município de Traipu, às margens do Rio São Francisco. Partimos para lá.

Passando pelo portal do município de Traipu.

Foi o local com mais demora para encontrar. Tratava-se de um imóvel dentro de um assentamento fora da cidade. Pela madrugada poucas pessoas são encontradas na rua para passar informação. Nem é preciso dizer que não tivemos apoio da polícia civil. Mas encontramos a polícia militar no local. Encontramos o local pela luz do rotativo da viatura deles!

Chegando no terceiro local do período noturno.

Os casos de morte suspeita dentro de residências geralmente envolvem pessoas solitárias, em condições precárias e com hábitos desaconselháveis (bebida e ou fumo). Neste caso ainda havia sinais suspeitos de precipitação da própria altura.


Outros elementos terão de ser reunidos com o exame cadavérico. Talvez a intensidade dos ferimentos venham a sugerir alguma violência física. Relatos informam que houve uma visita antes da constatação do óbito.

A partir daí não fomos mais informados de outras ocorrências. O que não quer dizer que a 185 km de distância de Maceió algo mais não pudesse ocorrer!

Trajetos efetuados e cidades visitadas de madrugada.

Foram 441 km no total. Meu colega motorista não aguentou tudo. Parte do trajeto, cerca de 125 km eu conduzi no retorno para o IC.

Apreciamos e registrei o alvorecer perto de Arapiraca:

Alvorecer em Arapiraca.

Quando chegamos em Maceió o sol já estava forte.


Ainda consegui baixar todos os dados dos levantamentos e inseri os relatórios no Sisgou. Cheguei em casa depois das 10h30 da manhã e não fiz mais nada até o dia seguinte.

Coisas do plantão.

Abaixo uma distribuição do tempo dispendido para cada etapa dos trabalhos noturnos. Em vermelho o tempo destinado aos levantamentos periciais e em azul o tempo usado para efetuar o deslocamento. Sabendo que vinte e dois minutos foram usados para lanchar/jantar em São Miguel dos Campos durante o segundo deslocamento do gráfico.


O trabalho começou às 18h30 com a chamada para o primeiro local e terminou às 06h40 quando a equipe chegou de volta no Instituto de Criminalística. Por isso o gráfico tenta acompanhar o desenho de um relógio para melhor percepção da distribuição do tempo.